Alquimia no Egito e na Arábia I

Posted Nov 23, 2008 by Koelveitch / comments 0 comments / Print / Font Size Decrease font size Increase font size

"No vale do Nilo acontece essencialmente algo paralelo ao ocorrido na China, Índia e Mesopotâmia. Uma civilização mítica ali emerge...."

No vale do Nilo acontece essencialmente algo paralelo ao ocorrido na China, Índia e Mesopotâmia. Uma civilização mítica ali emerge, por volta do terceiro milénio antes de Cristo, de um neolítico centrado na cultura do trigo. Essa mantém ritualisticamente as paleotécnicas da agricultura, da cerâmica e da medicina e estabelece as da mineração e metalurgia, as da arquitectura e, principalmente, a das tinturas de vidros, tecidos e cosméticos. Também a astrologia e a paleomatemática egípcia são de origem mítica. As primeiras são técnicas mágico-míticas e as últimas são mânticas.  

As técnicas dos metais e da forjaria, assim como as da fabricação de vidros coloridos e das tinturas, de um lado; e de outro, as da medicina e da astrologia, mostram analogias e coincidências significativas entre si, como se o refino dos metais e o preparo das pedras ornamentais se relacionassem com a cura das doenças e a conquista da imortalidade. Algo de específico, no caso do Egipto, é que essas técnicas originárias da alquimia estavam muito ligadas ao culto dos mortos. A química do processo de mumificação deve ter sido importantíssima nessa unificação. O simples fato de a mumificação ter como objectivo a imortalidade e divinização dos mortos deve ter sido, por isso, decisivo para o posterior aparecimento da alquimia egípcia.

Não se dispõe de documentos que atestem a actividade desses grupos de químicos ou médicos da civilização mítica egípcia; mas há testemunhos de persistência de tais actividades, já então arcaicas, em épocas mais recentes. Um deles é o célebre Papiro de Leiden, o outro é o Papiros Holmiensis de Estocolmo, encontrados numa mesma colecção, no fim do século passado em Tebas, e que datam dos primeiros séculos de nossa era. Ambos tratam de simples técnicas químicas, de metalurgia, de tinturas, de preparação de pedras ornamentais e da fabricação de ouro e prata. São tais documentos que permitem concluir pela existência de tais técnicas na civilização mítica egípcia.

Em 525 a.C., Cambises, rei da Pérsia, anexa o Egipto ao Império Persa. Neste momento, embora sagrando-se Faraó, ao fundar a XVII dinastia, Cambises destrói a civilização mítica egípcia, forçando seu confronto com a sapiência caldaica. Não há dúvida que os antigos mitos egípcios persistem; mas, agora sujeitos a uma interpretação sapiencial, isto é, sujeitos à reflexão individual, preocupada com a procura de uma verdade única. Ísis, Hórus, Osíris e Thot não seriam, a partir de então, personagens míticos mas deuses revelados ou profetas reveladores. Por volta do ano 300 a.C. a conquista do Egipto por Alexandre veio estabelecer definitivamente o advento de uma civilização sapiencial no Egipto, pelo estabelecimento, em Alexandria, da cultura helenística. Aliás, tal cultura era baseada numa forma toda peculiar de sabedoria: a filosofia grega, que apareceu na Grécia clássica 600 anos antes de Cristo.  

Um dos mais antigos textos helenísticos referentes á alquimia intitula-se A Profetiza Ísis para Seu Filho, onde Ísis revela como obteve de um anjo - que a desejava sexualmente - o grande segredo da técnica egípcia. Note-se que isso se dá num momento favorável da posição dos astros no céu: é o Kairos, o momento favorável - que domina um dos aspectos da alquimia helenística. O que revela o anjo não são somente receitas mágicas para obtenção do ouro alquímico mas, também, a necessidade da união dos opostos para consegui-lo, no momento favorável; o que é expresso pela exortação final de Ísis a seu filho Osíris: "De modo que tu és eu e eu sou tu". Isso indica que, nessa época, a técnica mítico-mágica da transmutação dos metais já se subordinava a um princípio sapiencial: o de que tudo resulta da constante oposição dos contrários e sua final conjugação.  

Dessa forma, a alquimia egípcia - semelhantemente à chinesa, à hindu e à caldaica - provém de técnicas mágico-míticas. Mas, ela só se constitui definitivamente como tal depois de se tornar possível a visão dessas técnicas sob um ponto de vista sapiencial, baseado em meditações sobre a unidade e a verdade. Tal sabedoria aparece me Alexandria, entre o terceiro século antes e o terceiro depois de Cristo, como resultado de um sincretismo do neoplatonismo grego, da cabala judaica, da mântica caldaica e da mítica egípcia. Plotino (205-270), o filósofo neoplatônico helenístico, com sua procura mística de união com o bem, através da inteligência, constitui-se como ponto de ligação entre a filosofia grega e a sapiência alexandrina.   

Essa ligação foi expressa pelo neoplatônico sírio Jâmblico (250-330) que transformou a filosofia mítica de Plotino numa teurgia ou conjugação mágica de deuses. Seu livro mais conhecido, Os Mistérios do Egipto, escrito em grego, é uma resposta à carta de Porfírio a Amélio refutando qualquer teurgia e as práticas de adivinhação da época. O livro Jâmblico é, portanto, uma defesa da teurgia, isto é da possibilidade da manipulação mágica dos deuses em prol da satisfação de desejos humanos. Faz apelo à sabedoria caldaico-egípcia, a qual se apoia na crença de uma co-naturalidade entre a alma humana e os seres divinos que governam o cosmo e a matéria. A verdade única vem dos deuses mas pode ser conhecida pelos homens através da mântica - as adivinhações em todos os seus aspectos: pelos sonhos, pela inspiração ou possessão, pelos oráculos, etc. Mas é de se notar que a defesa da teurgia é feita recorrendo à filosofia grega, especialmente a platónica e, frequentemente, à de Plotino.  

Continua...

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